MOÇÃO DE APOIO AO TOMBAMENTO MUNICIPAL DO EDIFÍCIO NORMANDIE (Coqueiros-Florianópolis)

<p> &nbsp;</p> <p> Dezembro de 2011</p> <p> Departamento de Arquitetura e Urbanismo</p> <p> Centro Tecnol&oacute;gico &ndash; Universidade Federal de Santa Catarina</p> <h3> <strong>Contexto s&oacute;cio-cultural da constru&ccedil;&atilde;o do Edif&iacute;cio Normandie:</strong></h3> <p> Florian&oacute;polis vivia no final da d&eacute;cada de 1950, um segundo ciclo de modernidade ,correspondendo localmente ao nacional-desenvolvimentismo brasileiro. Nesse contexto vivia-se a euforia da constru&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia e um apogeu da arquitetura moderna brasileira, com ampla visibilidade no exterior.</p> <p> Na capital de Santa Catarina, um estado perif&eacute;rico &agrave; &eacute;poca, essa nova arquitetura se manifestou de forma pontual, muito pela aus&ecirc;ncia de arquitetos com forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria e pela pr&oacute;pria economia da cidade, praticamente dependente dos recursos financeiros do Estado,em sua condi&ccedil;&atilde;o de capital.</p> <p> Os principais investimentos privados se deram no com&eacute;rcio (j&aacute; que a produ&ccedil;&atilde;o industrial era de pouco significado) onde novas atividades, como as ligadas a um turismo incipiente, come&ccedil;avam a surgir. Foi a &eacute;poca, por exemplo,&nbsp; da constru&ccedil;&atilde;o de cinemas, clubes sociais, hot&eacute;is, edif&iacute;cios de escrit&oacute;rios, bem como a introdu&ccedil;&atilde;o de novas maneiras do morar urbano: o edif&iacute;cio de apartamentos.</p> <p> Quanto &agrave;s praias, a regi&atilde;o continental de Florian&oacute;polis, particularmente as praias de Coqueiros, Bom Abrigo e outras, era o principal destino dos moradores e turistas, que procuravam balne&aacute;rios. Nessa perspectiva,em fevereiro de 1959, a empresa Cons&oacute;rcio de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico SA, apoiada por v&aacute;rios e expressivos cotistas das elites da cidade, lan&ccedil;ava o empreendimento que pretendia &ldquo;embelezar a Copacabana de Florian&oacute;polis&rdquo;, o bairro de Coqueiros. Tratava-se da constru&ccedil;&atilde;o do <em>Coqueiros Cassino Hotel</em>, que seria administrado pela Companhia Osvaldo Machado de Hot&eacute;is.</p> <h4> <strong>A autoria do projeto arquitet&ocirc;nico:</strong></h4> <p> O programa de atividades do empreendimento contaria, al&eacute;m do Hotel, com um &ldquo;luxuoso bar e restaurante, boate, sal&atilde;o de festas, sal&atilde;o de jogos, play-ground e servi&ccedil;o pr&oacute;prio de condu&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Al&eacute;m disso, se pretendia tamb&eacute;m construir nas proximidades, um loteamento, o Jardim Residencial Coqueiros.</p> <p> Para a execu&ccedil;&atilde;o do projeto arquitet&ocirc;nico foi contratado o arquiteto Roberto F&eacute;lix Veronese de Porto Alegre, com escrit&oacute;rio de proje&ccedil;&atilde;o e professor do Curso de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p> <p> Veronese fez parte da primeira turma de doze formandos em Arquitetura do Instituto de Belas Artes da UFRGS (1949) e era integrante da vanguarda sulista da nova arquitetura, defensora dos princ&iacute;pios estil&iacute;sticos modernos e do uso de novas tecnologias construtivas.</p> <p> Trabalhou com v&aacute;rios arquitetos de renome regional da &eacute;poca, como Emil Bered, com quem projetou pelo menos dois edif&iacute;cios de apartamentos not&aacute;veis pela qualidade, como o Edif&iacute;cio Linck (1952) e o Santa Terezinha (1954), ambos em Porto Alegre (7).</p> <p> Veronese tamb&eacute;m participou na d&eacute;cada de1960, em projetos urbanos, como a &ldquo;Cidade Industrial de Porto Alegre&rdquo; com o urbanista Edvaldo Pereira Paiva e o arquiteto Marcos David Heckman, propondo espa&ccedil;os habitacionais em meio a super-quadras (1961). Outro projeto importante em que trabalhou, juntamente com Emil Bered e Lu&iacute;s Fernando Corona, foi o da sede corporativa da Companhia Riograndense de Telecomunica&ccedil;&otilde;es (CRT) na capital ga&uacute;cha (1964).</p> <p> O conjunto de seu trabalho e as associa&ccedil;&otilde;es com arquitetos da primeira linha modernista ga&uacute;cha, resultantes em obras arquitet&ocirc;nicas de qualidade, o leva a ser considerado como importante refer&ecirc;ncia no cen&aacute;rio cultural moderno do sul brasileiro.</p> <h4> <strong>Caracter&iacute;sticas pl&aacute;stico-construtivas da edifica&ccedil;&atilde;o:</strong></h4> <p> Originalmente projetado para ser um hotel (com poss&iacute;veis instala&ccedil;&otilde;es de um cassino), a arquitetura do <em>Edif&iacute;cio Normandie</em> se caracteriza, em termos de volumetria, por configurar um bloco &uacute;nico (barra), paralelo &agrave; rua.</p> <p> Essa implanta&ccedil;&atilde;o, que possibilita uma ampla vis&atilde;o da orla mar&iacute;tima, coloca o pr&eacute;dio em posi&ccedil;&atilde;o mais pr&oacute;xima &agrave; frente do terreno, liberando o restante do lote, possivelmente para futura constru&ccedil;&atilde;o dos demais equipamentos originalmente previstos.</p> <p> Composto por quatro pavimentos, o volume apresenta uma varia&ccedil;&atilde;o de alturas no interior da caixa compositiva, inclusive com pilotis altos em duplo p&eacute; direito (marcando uma passagem &agrave; esquerda para o fundo do terreno), e conferindo certa leveza ao todo arquitet&ocirc;nico. Esses pilotis s&atilde;o parte do vocabul&aacute;rio da arquitetura modernista brasileira (heran&ccedil;a das vanguardas europ&eacute;ias), originalmente presentes&nbsp; na obra seminal e arquet&iacute;pica do Minist&eacute;rio de Educa&ccedil;&atilde;o e Sa&uacute;de (1936/1945), projeto de L&uacute;cio Costa e equipe, no Rio de Janeiro. A difus&atilde;o dessa nova formula&ccedil;&atilde;o construtiva, que se propunha a liberar o pavimento t&eacute;rreo para uso coletivo (espa&ccedil;o coberto-aberto), pelo Brasil afora, chegou assim a Florian&oacute;polis. Foi caracterizada assim, de forma evidente, uma ruptura com as pr&aacute;ticas construtivas tradicionais (da parede sobre parede, por exemplo) da arquitetura presente at&eacute; ent&atilde;o na cidade. N&atilde;o se trata somente de novas tecnologias (como o uso do concreto armado para estruturas independentes), mas sim de uma in&eacute;dita proposta compositiva, que se valia dessa nova t&eacute;cnica para sugerir uma ocupa&ccedil;&atilde;o diferenciada do solo urbano.</p> <p> A fachada principal tamb&eacute;m obedece aos preceitos modernos, com amplo e horizontal descortinar de aberturas(<em>fen&ecirc;tre a longuer</em>), marcadas por requadro saliente (nos dois &uacute;ltimos pavimentos), o que confere uma movimenta&ccedil;&atilde;o &agrave; face frontal&nbsp; da edifica&ccedil;&atilde;o.</p> <p> As caracter&iacute;sticas gerais da arquitetura do Edif&iacute;cio Normandie (e sua autoria), conferem a ele um destaque na paisagem do lugar, diferenciando-se das demais edifica&ccedil;&otilde;es e marcando na cidade marinheira a presen&ccedil;a de uma nova e exuberante arquitetura brasileira, a moderna.</p> <p> Como afirmamos acima, n&atilde;o se trata somente de uma arquitetura diferente da tradicional, mas sim um exemplo de um novo modo de ocupa&ccedil;&atilde;o do solo urbano. Em nosso entender, sua preserva&ccedil;&atilde;o imediata &eacute; importante, necess&aacute;ria e estrat&eacute;gica.</p>
Fonte:fontourateixeira@gmail.com Publicado em:14-12-2011 13:21:02